A endometriose é uma doença crônica complexa que atinge mulheres em todas as faixas etárias. Provocando dores abdominais, infertilidade e impactos na qualidade de vida. O problema da endometriose é oriundo do crescimento anormal do endométrio – tecido que reveste o útero. Ele deixa de se limitar ao órgão e se espalha para outras partes do corpo, como ovários, bexiga e intestino.
A reportagem traz relatos que retratam a luta diária de quem convive com a endometriose, fazendo um apanhado do problema por meio de uma divisão capitular, suportado por um levantamento catalográfico da doença e os problemas que ela acarreta.
Para o desenvolvimento desta matéria, foram consultados profissionais da área da saúde, pacientes e gestores públicos. No intuito de compreender a falta de qualificação e as limitações estruturais para atender as pessoas que sofrem com o problema.
O QUE É ENDOMETRIOSE?
O condicionante dos sintomas está diretamente ligado ao crescimento desordenado do endométrio, uma espécie de tecido que reveste a parte interna do útero da mulher para proteger o feto em desenvolvimento. O problema está justamente no transbordamento desse tecido, que começa a crescer e se espalhar para outros órgãos do corpo, levando inclusive à infertilidade da paciente.
ÚTERO SAUDÁVEL
ENDOMETRIOSE


A doença surge predominantemente em mulheres nos seus primeiros anos do ciclo menstrual, caracterizada principalmente por provocar dores fortíssimas no abdômen e na região pélvica feminina e por ser de difícil compreensão clínica. Muitas mulheres só procuram atendimento especializado quando o seu quadro de saúde já não é suportado condicionalmente, por normalmente associarem os sintomas da doença ao seu período fértil, o que acaba levando a um diagnóstico tardio e impreciso.
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Por se tratar de uma doença crônica e ainda pouco conhecida pela comunidade médica, seu tratamento consiste na aplicação de anti-inflamatórios para redução e controle do crescimento do tecido, além do procedimento cirúrgico para remoção do endométrio que chega a obstruir as paredes uterinas, fazendo com que o óvulo não chegue ao órgão. A endometriose pode causar infertilidade e provocar diversos outros problemas que vão desde dores intensas e sangramentos até um extremo desconforto durante a relação sexual.
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O maior desafio, no entanto, está na quase total falta de assistência médica qualificada para tratamento de mulheres com endometriose na rede pública de saúde. Na maioria das unidades básicas do município de Juazeiro do Norte, por exemplo, falta equipamento cirúrgico específico para esse tipo de caso e pouquíssimo ou nada se encontra de anti-inflamatórios para controle do problema. Foi o que relatou em entrevista a enfermeira da UBS Salesianos, Ivonete Sampaio, especialista em saúde da mulher. Segundo ela, a prevenção se dá pelo diagnóstico precoce e, para isso, é fundamental um sistema de saúde pública de qualidade, para receber mulheres que têm um completo desconhecimento do assunto.​​​​​

Suplemento em áudio da ginecologista Jorgyana Coimbra. A médica dá orientações sobre o tratamento da doença.
Cerca de 1 em cada 10 mulheres na idade reprodutiva são afetadas pela endometriose e estima-se que 15% da população feminina entre 25 e 35 anos seja acometida pela doença, que mesmo raramente pode afetar mulheres gestantes e em período de menopausa, inclusive podendo levá-las a óbito.
Dados do Ministério da Saúde apontam para um aumento dos casos de endometriose no Brasil em 2025, com relação principalmente aos atendimentos na atenção primária do SUS, com uma estimativa de crescimento em torno de 78%, levando em consideração também o início do tratamento pós-diagnóstico que pode levar de 6 a 7 anos. O que torna o cenário ainda mais desafiador é o fato de muitos profissionais de saúde não estarem preparados para identificar os sintomas e fazer uma constatação mais rápida.
Apesar de não existir cura, o tratamento pode condicionar a vida da mulher a ter uma rotina diária normal. Já o pós-cirúrgico, que consiste na remoção do tecido endometrial, exige um acompanhamento regular com uso contínuo de medicamentos para evitar que a doença reapareça. O conhecimento médico-científico em torno da doença ainda parece ser insuficiente. O que se sabe é que a melhor maneira para se prevenir a endometriose está numa alimentação saudável à base de frutas e verduras, acompanhada de atividade física regular e, de preferência, nos primeiros meses da puberdade feminina.
O DIAGNÓSTICO
A endometriose é uma das doenças mais complexas e, ao mesmo tempo, mais difíceis de ser diagnosticada entre as mulheres. Mesmo que atinja uma grande quantidade de mulheres em idade reprodutiva, o reconhecimento dos seus sintomas ainda é algo bastante complicado, e enfrenta barreiras culturais, estruturais e clínicas.

Por muitos anos, várias mulheres convivem com dores intensas e recorrentes, sem saber o motivo. O que pode parecer uma cólica "normal", pode se transformar em um sofrimento constante que afeta o trabalho, a vida social e a rotina.
Com a demora no diagnóstico, durante esse tempo, os sintomas podem ser confundidos com outras doenças, ou tratados da forma errada, enquanto a endometriose avança silenciosamente.
“No dia a dia a gente nota que as pacientes normalizam dor durante a menstruação, dor durante a relação sexual, acham que é normal e vão levando. Ah, toma só uma medicaçãozinha pra dor ali, vai passar”, é o que explica a médica Jorgyana Coimbra, ginecologista e obstetra,“Toda dor tem que ser investigada, toda dor tem que ser levada em consideração. A gente não pode negligenciar dor nenhuma”.
Os sintomas da endometriose podem variar tanto na intensidade como na forma. Há mulheres que relatam desconforto leves, há também casos em que a doença é descoberta no momento de um parto, e até mesmo ao investigar a infertilidade. Ou seja, essa variedade de manifestações torna o diagnóstico um verdadeiro desafio.

Jorgyana Coimbra - Ginecologista e Obstetra
Como se diagnostica a endometriose
O primeiro passo é uma escuta atenciosa. Um bom exame clínico, para que a partir de um diálogo seja relatada a dor, a intensidade, e o momento em que ela aparece. Em seguida, vem o toque clínico que ajuda o profissional a identificar os possíveis nódulos e aderências. Mas, é no exame de imagem que a doença costuma deixar seus rastros.
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“Os dois principais métodos para diagnosticar a patologia é a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal para mapeamento de endometriose e a ressonância magnética da pelve”, é o que explica a médica radiologista e especialista em endometriose, Nubia Kenne Feitosa. “Hoje em dia acredita-se que até a ultrassonografia realizada por um médico especialista e com o preparo adequado supere a ressonância”, afirma a profissional.
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Além da ultrassonografia especializada, a ressonância magnética possui um papel importante para o diagnóstico, pois oferece uma visão detalhada das lesões e extensão da doença, auxiliando no planejamento do tratamento cirúrgico quando necessário. Por muito tempo, a laparoscopia, um procedimento invasivo, era considerado um padrão para diagnósticos. Hoje, com os avanços nos exames de imagem, ela só é indicada em casos específicos.

Suplemento da médica radiologista Nubia Kenne. Ela fala sobre sintomas e diagnóstico da endometriose.
O olhar de quem enxerga além do exame
Diante de tantos avanços no campo médico, seja por descobertas ou evolução de equipamentos, o diagnóstico depende ainda, sobretudo, do olhar e da escuta do profissional.
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“Tem muita gente que posterga para procurar um profissional e que quando cai na mão de pessoas despreparadas, acaba não sendo ouvida e tem essa dor normalizada, quando essa dor deveria ter sido valorizada há muito tempo”, ressalta Nubia. “E não só pelos profissionais, às vezes até em casa. Têm várias expressões: ‘Quando casar passa, que é assim mesmo’, e muitas pessoas vão deixando para lá por conta disso”.
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É parte essencial do diagnóstico um profissional que possa acolher e ouvir sem pressa a paciente. O olhar humanizado é o que faz toda a diferença entre uma mulher diagnosticada cedo e outra que passa anos em busca de resposta.
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Desafios e avanços
Apesar dos avanços tecnológicos, muitas barreiras ainda são percebidas. O acesso a exames especializados na rede pública de saúde ainda é um problema devido a grandes filas de espera, enquanto o custo na rede particular pode ser elevado, tornando o diagnóstico inacessível a muitas mulheres.
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Mas também há grandes sinais de mudança. A maior visibilidade da doença nas redes sociais tem aumentado o número de campanhas de conscientização, e até mesmo de formações médicas na área. “O que está acontecendo é que mais gente tem despertado interesse para essa patologia específica de endometriose. Tem mais gente estudando sobre isso e se habilitando para tratar e para diagnosticar”, afirma Nubia.
O diagnóstico pode ser um ato de alívio e libertação. “Quando a gente diagnostica cedo, consegue dar uma qualidade de vida muito boa para a mulher, então ela segue as orientações, o tratamento. Se ela for uma boa adepta ao tratamento a gente vai dar uma ótima qualidade de vida”, é o que pondera Jorgyana Coimbra. O diagnóstico não é o fim da jornada, pelo contrário, é a partir dele que começa uma nova fase, o tratamento, de cuidado e sobretudo de reconciliação com o próprio corpo.
ACESSO AO TRATAMENTO
Com a concretização do diagnóstico, se inicia a fase de tratamento da endometriose. A paciente deve procurar atendimento especializado e tratamento clínico via Sistema Único de Saúde (SUS) ou na rede privada. O tratamento na rede pública pode ser iniciado mesmo sem o diagnóstico comprovado da endometriose. Com a falta de comunicação adequada, a paciente pode confundir a doença com a menstruação e sofrer consequências sérias como infertilidade e dores incapacitantes.

No Ceará, são inúmeros os casos de mulheres em idade reprodutiva que convivem com dores silenciosas e intensas por conta da endometriose. Embora ter a certeza do diagnóstico é de extrema importância e essencial para controlar essa enfermidade, a jornada para chegar até ele é muito longa. Em boa parte dos casos, os sintomas são confundidos com cólicas menstruais, e isso dificulta o diagnóstico preciso e retarda o acesso ao atendimento especializado.Por mais que existam tratamentos gratuitos via SUS, há pacientes que optam por fazer plano de saúde particular devido às dificuldades em obter o tratamento por meio da rede pública.
Em Juazeiro do Norte, o cenário não é diferente. Muitas mulheres enfrentam uma verdadeira maratona até receberem o diagnóstico, percorrendo postos de saúde, hospitais e especialistas sem respostas concretas. Apesar de o município contar com uma rede de atenção básica estruturada, ainda há carência de profissionais capacitados para identificar a doença e encaminhar as pacientes de forma adequada.
O Hospital Regional do Cariri, referência em atendimentos de média e alta complexidade, realiza parte dos procedimentos, mas não possui um centro especializado em endometriose, o que obriga muitas mulheres a buscar tratamento em outras cidades ou na rede privada. Essa realidade reforça a urgência de políticas públicas locais que garantam tratamento de qualidade para as mulheres de Juazeiro do Norte que sofrem com a doença.
A Enfermeira da Unidade Básica de Saúde do Bairro Salesianos, Ivonete Sampaio, afirma que o sistema público não está apto e nem preparado para abordar de forma positiva a mulher que está passando por esse problema. Segundo ela, é necessária uma ampla capacitação dos profissionais: “Acho que a gente precisa de treinamentos, de cursos. A gente tem muita capacitação de gestante, muita capacitação para cuidar de criança, mas ainda falta essa capacitação para ter atenção maior com a endometriose”.
O tratamento não é igual para todas as pacientes, explica a ginecologista e obstetra Jorgyana Coimbra. A abordagem depende do objetivo reprodutivo de cada mulher. "Para quem não deseja engravidar no momento, o tratamento se baseia em um tripé: alimentação saudável, atividade física regular e bloqueio menstrual, que ajuda a controlar a dor e o ciclo. Já para as pacientes que desejam engravidar, o foco está na alimentação, nos exercícios e em orientações específicas para reduzir a dor pélvica, sem prejudicar a fertilidade," detalha a médica.
Segundo a especialista, esse acompanhamento deve ser multiprofissional, incluindo nutricionistas, fisioterapeutas, pélvicos e psicólogos, garantindo que cada paciente receba um cuidado personalizado e efetivo.
Por meio da Secretaria de Saúde de Juazeiro, o tratamento contra a endometriose é efetivado pelo programa Tratamento Fora de Domicílio, parceria feita com o município e o governo do estado. O objetivo é disponibilizar o acompanhamento das pacientes por meio da atenção especializada juntamente com os serviços estaduais de referência. O município oferece o aporte logístico com translado ida e volta para a realização em segurança do tratamento na capital Fortaleza para as execuções dos procedimentos cabíveis ao paciente.

Auricélia Bezerra - Vereadora
Iniciativas Públicas
Atualmente, tramita na Câmara de Vereadores de Juazeiro do Norte um Projeto de Lei de autoria da parlamentar Auricelia Bezerra que viabiliza o tratamento da endometriose através do sistema único de saúde (SUS) para mulheres de baixa renda e que sofrem com essa doença sem ter condições de custear o tratamento ou até mesmo o procedimento cirúrgico. Para a vereadora, o projeto de lei é fundamental para garantir às mulheres do município um atendimento mais específico voltado exclusivamente para o tratamento da endometriose: “Essa doença merece uma atenção especial da nossa parte, principalmente por se tratar de um problema crônico.”.
O Projeto de Lei tem como objetivo conscientizar a população sobre a causa e os sintomas, capacitar os profissionais da saúde com cursos e especializações para o diagnóstico preciso e tratamento e atender uma alta demanda de exames de imagem e videolaparoscopia por meio do SUS como forma de democratizar o acesso ao tratamento.
Em âmbito nacional, um Projeto de Lei que tramita na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal insere a endometriose na política nacional de tratamento que garante a integralidade no SUS com atendimentos específicos para as mulheres que se encontram na condição de portadoras da doença. O objetivo do projeto é que o poder público garanta o acesso a exames, assistências e terapias.
O tratamento e diagnóstico feito no Ceará pela rede pública é realizado pelo Programa Saúde da Mulher (Sesa), que tem como objetivo agilizar os procedimentos, seja ambulatorial ou cirúrgico.
A PACIENTE
A trajetória de Nathalia Araújo até o diagnóstico de endometriose começou aos onze anos, com o primeiro ciclo menstrual, e só terminou em uma mesa de cirurgia do Hospital Regional do Cariri, catorze anos depois. Sua história é um extrato da maioria dos problemas que cercam a doença. Um relato corajoso e detalhado, que nos ajuda a entender os gargalos enfrentados pelas pacientes de endometriose em Juazeiro do Norte.

Nathalia Araújo
No dia 10 de março de 2020, Nathalia Monally Araújo entrou na sala de emergência do Hospital Regional do Cariri, em Juazeiro do Norte. Sentia fortes dores no lado direito do abdômen, além de febre e vômitos. Nathalia tinha em mãos um exame de ultrassom que apontava para uma crise aguda de apendicite. O médico que havia lidado com o caso dias antes pediu que ela tivesse urgência e procurasse intervenção cirúrgica. Ao menos de início, a ajuda não veio. A equipe do Regional não estava convencida do diagnóstico e um segundo exame de imagem aumentou a incerteza, uma vez que não confirmava o ultrassom anterior. As dores no “pé da barriga” não cessavam.
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Sensibilizado com a situação, um dos cirurgiões enfim aceitou fazer o procedimento, mesmo sem um diagnóstico conclusivo da equipe do hospital. Nathalia reconta a conversa com o médico: “Vamos fazer sua cirurgia. Vamos abrir, ver o que está acontecendo aí dentro. Se você realmente estiver com apendicite, a gente tira tudo direitinho. Se não, tiramos assim mesmo porque o apêndice é algo que tem como conviver sem. Não é algo preocupante”.
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Com o procedimento realizado, ela ainda estava um pouco desorientada quando uma enfermeira a procurou para dizer que houve uma intercorrência durante a cirurgia. Ela relembra: “Tiramos o apêndice. Estava com a apendicite quase estrangulando.” A próxima revelação causou surpresa. “Tiveram que retirar o ovário esquerdo porque relataram que ele estava necrosando. Eles encontraram muito sangue dentro de mim, solto. Já tinha sangue até no meu intestino. Quando eles abriram, viram uma confusão”.
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“Não tinha nenhum especialista em endometriose na sala de cirurgia. Não tinha nenhum especialista que pudesse bater o martelo. Eles não sabiam exatamente o que tinha acontecido. Sabiam que eu estava tendo apendicite e estava com o ovário necrosando. E eles precisaram retirar. Então, foi um choque para mim muito grande, na sala de cirurgia, receber isso [a notícia da perda do ovário esquerdo]. Foram dias em que eu fiquei muito mal”, diz Nathalia.
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Passados cinco anos do episódio, ela relembra esses momentos com aparente tristeza. Além do trauma, a perda do ovário colocou em risco o sonho de ser mãe. A própria paciente não tinha certeza do que havia acontecido na mesa de cirurgia. Após biópsia no ovário e apêndice retirados, veio o diagnóstico: os dois órgãos tinham focos de endometriose.

DADOS SOBRE ENDOMETRIOSE
10%
DAS MULHARES EM IDADE REPRODUTIVA
+76%
AUMENTO DE DIAGNÓSTICOS NOS ÚLTIMOS TRÊS ANOS
7mi
DE PACIENTES NO BRASIL
30 a 50%
DE PACIENTES COM A FERTILIDADE PREJUDICADA
“Eu estava com um endometrioma, que já é da endometriose. É um nódulo, que junta ali no ovário. Eu tinha um endometrioma que se rompeu. E isso afetou o meu ovário”. Ela detalha: “A perda do ovário, a apendicite, foi justamente por causa da endometriose. Então, ela já vinha me afetando desde os meus 11 anos”.
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Dos 11 aos 25 anos, Nathalia conviveu com dores durante o ciclo menstrual. “Muitas pessoas diziam que era frescura, que era normal, que eu estava exagerando”, diz. Com o passar dos anos, a dor progrediu e se tornou incapacitante, especialmente nas cólicas, isso a fez buscar ginecologistas na rede pública de saúde. “Não é nada para se preocupar. Mais na frente, você vai melhorar ou então toma anticoncepcional e isso vai ajudar”, ela lembra de uma conversa que teve com o primeiro profissional que procurou. Foi preciso uma cirurgia às pressas para que chegasse ao diagnóstico de endometriose.
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“Foi um choque muito grande saber sobre isso. Mas finalmente eu tinha um diagnóstico e poderia ir atrás para tentar me ajudar”, relata Nathalia.
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De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença atinge 7 milhões de pessoas no Brasil – ou cerca de 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva. A doença pode levar até sete anos para ser diagnosticada. Nathalia levou o dobro desse tempo para conhecer a razão dos sintomas que a acompanhavam desde a infância.
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“Quando eu cheguei lá [no Hospital Regional], muitos queriam já me liberar, queriam me dar remédio para dor, e estavam pensando em dar alta. Se eu tivesse ido para casa, meu apêndice teria estrangulado, meu ovário estava necrosando… Então eu ia ter uma infecção generalizada e ia morrer?”, questiona Nathalia.
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O negligenciamento da dor é lugar comum na história de pacientes que convivem com endometriose. A falta de especialistas nas equipes médicas é um fator que contribui para esse quadro, mas ginecologistas de formação também podem cometer o erro. As dores de Nathalia foram desvalorizadas por profissionais da área. Especialistas consultados pela equipe de reportagem também apontam para recortes de gênero e raça. A dor não é ignorada de maneira uniforme. O machismo arraigado na sociedade também aparece nos consultórios e hospitais.
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Com o diagnóstico, Nathalia procurou ajuda específica para endometriose. “Fui atrás de um plano de saúde, pensando que eu encontraria especialistas. E não foi bem isso.” Faltam especialistas, mesmo na rede privada, e a constante troca de profissionais (uma dinâmica dos planos) atrapalharam esse momento inicial do tratamento.
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Até março de 2025, cinco anos após o diagnóstico, ela foi medicada com Dienogeste, anticoncepcional que interrompe o ciclo menstrual e alivia as dores do período. Ela segue a recomendação de praticar atividade física e precisou ajustar a dieta. Endometriose é uma doença inflamatória pélvica crônica. Certos alimentos podem provocar crises e agravar a dor. Frituras e alimentos com glúten estão entre as coisas das quais abdicou.
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O tratamento com Dienogeste foi interrompido para tentar uma gravidez. Nathalia tem um caso de endometriose que demanda intervenção cirúrgica, mas o procedimento foi adiado porque afetaria a reserva ovariana, complicando ainda mais as chances de conceber um filho.
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De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), a endometriose pode causar infertilidade, afetando entre 30% e 50% das mulheres que possuem essa doença.
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“Mulheres que têm infertilidade por conta da endometriose, sentem todos os meses a dor semelhante a um parto (decorrentes da doença), só que vão carregar para sempre a incerteza se vão ter ou não um filho”, afirma a paciente.

Suplemento em áudio da paciente Naiane Araújo. Ela fala sobre negligência da dor e seu caminho até o diagnóstico.
Caso de família
Estudo da Universidade de Oxford aponta para uma relação entre bases genéticas associadas com diversos tipos de dores e a endometriose. O fator genético teria, segundo o estudo, papel central na predisposição das pacientes contraírem o problema. Na família de Nathalia Monally, sua mãe e irmã são diagnosticadas com a doença.
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Especialistas entrevistados pela nossa reportagem também apontam para fatores ambientais. Uma vez que famílias tendem a dividir a mesma alimentação, rotinas e hábitos de cuidado com a saúde.
Além de Nathalia Monally, também sentamos com sua irmã, Naiane. Ao contrário de Nathalia, Naiane teve um diagnóstico tardio, que veio após o nascimento do seu segundo filho. Fortes dores no nervo ciático foram o estopim para procurar ajuda.
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“Todas as vezes, durante todos os dias do ciclo menstrual, eu sentia essa dor. E aí eu fui procurar uma ginecologista pra fazer os exames de rotina, né, que eu faço todos os anos. Ela simplesmente olhou pra mim e disse… ‘Isso é normal. Sentir dor é normal.’ Então eu fiquei com aquilo. Pensando… Eu vou ter que conviver com isso”, relata Naiane.
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O diagnóstico definitivo só veio através de exame clínico realizado por uma segunda profissional, encerrando o ciclo de dores incapacitantes que prejudicava a qualidade de vida da paciente.
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O caso das irmãs Araújo é sintomático para entender a realidade de quem sofre com endometriose em Juazeiro do Norte. Passando pelo ainda escasso quadro de profissionais especializados, o machismo implantado nas equipes médicas, o desconhecimento em torno da doença e o negligenciamento da dor.

